Minhas letras

 

Você é tudo
música e letra: Val Gomes

Além do que eu acredito
não vou fomentar
são falsos abrigos
não vou cultivar

Sem medir a tempestade
que já passou
e também o naufrágio
que ninguém causou

Você é tudo
pra mim é tudo
você em tudo
o que estou vivendo
só me espere livre
no cais do luar

Alguém que viaja comigo
no sonho
no sol
no sorriso
alguém que não quer solidão
mas não me faz de refém

 

Víbora pérola
música e letra: Val Gomes

Quando digo que não sou de pedra
quero dizer que sou sensível
tanto ao seu olhar de pérola
quanto ao seu olhar de víbora

Quando penso no amor eterno
me revelas o inatingível
sem o corpo a paixão flutua
atinge o cerne sem comer o fruto

Quando espero um sol nascente
você se veste de crepúsculo
esqueço as pétalas do caminho
tão à mostra, sem segredos,
minha pele arte a seus espinhos

 

Vera Viagem
música e letra: Val Gomes

Quando te vejo
saio para viver
ensaio para voar
um beijo na sua estrela
desejos no cais no mar

Quando te toco
sinto a lua girar
minto, a terra tremer
sem medo de ser você sereia
anseios de ouvir o seu cantar…no ar

Quando a lua
for a sua beleza
a terra o meu caminhar
lágrimas da fonte a ressuscitar
o fogo e o seu inflamar…o fogo

Quando te tenho
solto os lobos de mim
gritos loucos de sim
coragem pra gente se amar
a vera viagem de se encontrar na terra

 

Vem
música e letra: Val Gomes

Vem
eu não tenho
mais ninguém
solidão mata
armadilhas tem
meu lugar é esse
e o teu jeito é frio
quebre os adereços
mude os endereços
confunda o mundo
que te sufoca
lança-te a um desafio
luz sobre o sombrio
medo de amar

 

Vanju
música e letra: Val Gomes

Eu era do mundo, Vanju!
tu eras da vida
nenhuma fé nos conduzia
nenhuma música
mas eu não queria
não querias também
a solidão
Vanju! Vanju! Vanju!
longe do mar
eu preciso ser família
eu preciso ser pai
idolatrada, Vanju!
não me aborreça, Vanju!
já risquei do mapa
muito cabra, Vanju!
Vanju! Vanju! Vanju!

 

Tanta Gente
música e letra: Val Gomes

Se o mundo cria tanta gente
vou levar livre na voz
a palavra amor

Agora meu pensamento
viaja sem medo
me lanço nas águas
pra chegar do lado de lá
e acordar a aldeia que existir

Nunca ser deserto
é a solução
viver sem ser tão passivo
olhar sem causar distâncias

Nunca ser distante
é a solução
viver sem ser tão passivo
olhar sem causar desertos

Em 1983, no Festival de MPB de Brazópolis/MG, a canção “Tanta Gente” recebeu um prêmio especial do juri formado pelos músicos Lenine, Lula Queiroga, Tadeu Mathias, Ivan Santos e Alex Madureira.

 

Tango
música e letra: Val Gomes

Era apenas uma cigana bobagem
muscular, sentimental, marinha
vi no seu sorriso um caminho
um carinho pra solidão, minha viagem!

Eclipsexular sobre a cidade
famas dançam tréguas, invadem!
busquei a indescritível paisagem
jogos de memória e de proximidade

Ficou assim sem lágrimas
sem tarde, sem saudade
feito um tango que por um instante
serenou a alma de um tirano poeta
não houve tempo pra festa!

 

Serenidade
música e letra: Val Gomes

Não há solidão em minha casa
já conquistei felicidade
nasci com o sol, ele ainda me aquece
por isso tenho o dom de amar
tantas pessoas, os animais, a natureza e a arte de cantar

Caminho na areia desta praia
e a lua é mais serena
sou clara, morena, maria
o deus tempo sempre irá guiar
a minha voz,  aquele tambor, a poesia, cristais, amém, meu dia

Canção dedicada à Gal Costa e Maria Bethânia

 

Ser mais ser
música e letra: Val Gomes

Ser mais ser
grande sertão
nos sertões do amanhecer
afastar as trevas e tiranias
semear primaveras,
sonhos, utopias
ensimesmar-se
de poesia, de natureza
e defendê-las
nos afetos, lutas e canções
cais da lua
candeia
serra
estrela vida
tanta gente
pulsação

Despontar no ser o sol
e ser mais menino
despertar no ser o som
e ser mais verdade

Libertar no ser o pássaro
e ser mais multidão
liberar no ser a mágica
e ser mais alegria

 

Rua Rosa
música e letra: Val Gomes

Vi você chegar
na rua Rosa
minha senhora
não desejo outro estar
estar ao seu lado
apaixonado
nem que eu tenha
que fazer voar:
tapete mágico, mágico!

Duas rosas
vêm vindo no vento
da rua rosa
nasceu o lamento

 

Rios
música e letra: Val Gomes

Você quer entender minha solidão
eu sou um rio
meu poema é um rio

Você quer entender esta canção
surjo Negro na floresta
sem temer o precipício

Você quer saber qual o meu nome
eu já fui rico
hoje sigo São Francisco

Você quer ver o que eu vejo
ouça “Beira Rio/Rua do Porto”
cante o Rio Piracicaba

Você quer saber onde eu moro
sou a alma de um corguinho
que sonhou ser um atlântico

 

Reis da folia
música e letra: Val Gomes

Não te apresses
salve rainha
salve folia de reis
chicotes e preces
rabecas
requintas
menino Jesus e josés
senhor dono da casa
viemos anunciar
o salvador
o salvador
o salvador
brilha uma estrela sobre o céu
o mais bonito e adorado céu
que habita nossa bandeira

 

Raiz
música e letra: Val Gomes

O amor que me conduz
não condiz com sua ausência
sem sombra de dúvida
é dádiva de luz

Terra pra raiz
não cair no vazio
o que for azul
o que é noz no caminho

Não exagero ao dizer
você é quem reluz
nosso destino

Aquele jipe audaz
a fortaleza
invisível
na noite voraz
enfrenta zagaias
e sai ilesa

 

Quinta do Sol
música e letra: Val Gomes

Tenho mais que dois olhos
preciso de muitos anos
sei que posso viajar
e encontrar nossa pedra-de-toque
e se agora surgisse um jaguar
não haveria esse lugar:
Quinta do Sol
sol, nossa direção!
reino de luz é uma cidade
e toda cidade é irmã de Mirassol
minha irmã
guardei pra você um postal
das terras sofridas de Tupã

 

Pulsação
música e letra de Val Gomes

Vem meu coração
abra o coração
já tentamos muito
olhos de razão
não duvide, não!
da força do vulcão
perpetuando fogo
em jogos de emoção
tarde não,
revelação!
os mistérios são
brinquedos da paixão
covarde não,
pulsação!
os desertos são
planos da ilusão
eta mundo cão
neste fértil chão
não me entrego, não!
nada me seduz na solidão

 

Porão
música e letra: Val Gomes

Não vou te deixar neste porão
não tenha medo
me dê a mão
degrau por degrau
abra os olhos
veja o sol
eis a terra
pise nela
pinte e toque o céu

 

Poemã
música e letra: Val Gomes

Achei uma fonte
não pude beber
o olhar da mais linda aldeã
traçou uma ponte
não pude colher
o amor de quem me deu a romã
vigiei a entrada
a noite surgiu
só notei quem me matou de manhã
errei a estrada
o roteiro sumiu
me prendi ao que em você é pagã

 

Nobreza
música e letra: Val Gomes

Nobreza
ira do vento sobre o mar
o sol sacrificando a luz
pra terra ser pisada
nobreza
fruta boa no pomar
vida fértil e frágil
olhar cigano e o amor

Ê… Luanda!
lua nova, vem!
se mostrar inteira
lua nova, vem!

São Jorge bem amado
por todos os dias
meu santo guerreiro
defensor do cruzeiro
cruzeiro do sul

 

Minha paz
música e letra: Val Gomes

Minha paz
não é pra dar nem vender
é só pelo prazer
de estar bem junto
vai ser melhor
a gente se enluarar
a gente se desejar
sem medo dos temporais
é preciso compreender
nosso chão é nosso céu
e são tantos os sinais
de posse e de maltratação
que meu coração ficou aberto
o teu coração foi mais esperto
foi brincar com os animais

 

Minha musa
música e letra: Val Gomes

Meu anjo
meu céu
meu amor
minha estrela guia
meu desejo
meu mel
meu calor
minha poesia
sou o teu fã
número um
mais que o afã
por um baticum
minha musa
minha ilha
minha mina
minha música
te vejo
te quero
te tenho
te adoro
paixão sem fim
este samba
quer saber
se o teu sorriso
é um sim

 

Aboio
música e letra: Val Gomes

Meu talento pra me destruir
é bem aceito
vivem de aplaudir
minha solidão
soltaram os cachorros
um me olha no fundo do poço
outros brigam pelos ossos do meu amor
cadê o meu amor?
cadê o meu amor?
só vejo nuvens
de egos em manada
a maldade de tocaia
servidão voluntária
um transtornado grita Deus
no porta do açougue
a vida feito coice
um aboio
nosso adeus

 

 

Migalhas sonoras (rascunhos)

Uma canção

Uma canção
operária
carcerária
cancerígena
milagrosa
perigosa
peregrina
inesperada
represada
repentina

taciturna
canção
vaso para
um vulcão

Val Gomes
Sampa – Brasil
30 de agosto de 2024

 

 

Construir poemas no chão com as estrelas que não cairão jamais
construir acordes na clave de sol com as notas que se rebelaram
chover nas videiras plantadas ao longo dos remotos estradões
chover nas janelas com olhos colados no tempo (ruim ou bom) que passará

 

Camarada

Pescador
negro sem nome
noites de escravidão
nos paranás
vieram pra cá
com feições de
aús, jézos, baianos
…

 

Esse vento veio de longe
hoje mora comigo
varre o esconderijo
só não varre aquela flor
nascida antes do abrigo
quando tudo era brejo
e eu um sapo…

 

Íntimos oceanos

Uma carta de amor
não são apenas flores
são também as cores da
cortante febre que nos
arremessa às distâncias
não serve de bote
para os nossos mais íntimos oceanos
é mais mergulho
do que assombro
não precisa ser amável
é vida inflamável

Val Gomes
Sampa – Brasil
18 de março de 2026

 

Um dia vivo
um dia arrisco
em nosso calendário infinito
semanas de pureza
semanas de artifício
“você se guarda/e são novos os filmes e livros”
às vezes me desarma com sorrisos
em uma estrada repleta de abismos
a tempestade…
…vícios
um dia…

Antes

Antes cigano
antes pessoa
antes rosa e caetano
antes cigana
antes marinho
antes azul e susana
antes os felinos
o sol da manhã
a noite de estrelas
todo carinho
nosso caminho
poesia

Val Gomes
Sampa – Brasil
19 de julho de 2020

 

Velho aldeão

Esta empresa
vai destruir florestas
esta empresa
já dizimou aldeias
mataram o velho aldeão
disseram que era baderneiro
nada moderno, sem razão

Minh’aldeia
tinha festa
magia
contemplação
hoje nada resta
nem vinho nem pão
ô…ô…aldeão
ô…ô…aldeão

 

Um baião

Um solar
um brinquedo
um baião
um segredo
uma surpresa
uma ave
uma seara
uma acácia
esse rio
esse jeito
esse tom
esse veio
aquela mina
aquela sina
aquela rocha
aquela asa
o desejo
o vôo
o céu
o fogo

 

Umbigada

Brasil
umbigada de Luanda
samba
quando o negro
disse semba
desde quando tataravô
aprontava por aí
no meio dos canaviais
em conluio com o saci
Brasil
último craque da pesada
nada
nas fontes do marco zero
uns branquinhos
uns pretinhos
abalando a catedral
as branquinhas
as pretinhas
os esperam pro Natal

 

Toda tribo

Toda tribo
é livre pra dançar
e sabe se guiar
pelos astros
em respeito à natureza
e ao dom de ser humanidade
mistura de loucura e certeza
contra o deus da miséria e da maldade
armas de fogo
doutrinações cristãs
assim são dizimados
os povos de Jurupari

 

Tantas canções

Tantas canções
exaltações
e teu coração
não bate feliz
por esta cidade
será a falta de um rio
uma árvore
um quintal
de um sol?

 

Status quo

Ele criticava
faz hoje parte
da engrenagem
ganhou dinheiro
poder e status quo
decide ataques
à floresta
aos povos da floresta
meu povo sofre, chora, morre
ele brinda:
prêmios
viagens
solenidades
status quo

Val Gomes
Sampa – Brasil
29/06/2020

 

Santa pedra

Santa pedra
filha de Pedro
pai de meu pai
o silêncio
Minas Gerais
rio a castiga
margem seca
sem lhe tocar
agora é preta
irmã das horas mortas
pedra de assombrar

 

Romantiqueira

Se o sol não se repete
a menina
flor-de-caqui
amadurece aqui
no meu paladar
doce-amar-goiaba
teus olhos
cor de abacaterão
um fruturo lindo
na romantiqueira serra

 

Rio Pardo

Rio Pardo
ar do meu amor
Rio Pardo
fogo no tambor
colo de mulher
nascente
gente desta terra
gente desta água
gente deste fogo
gente deste ar

 

Quando chega o amor
música e letra: Val Gomes e Susana Buzeli

Quando chega o amor
ele vem pra valer
revela quem eu sou
sou chuva
às vezes cinza
deserto
nada

 

Urbanos

Os urbanos estão em guerra
de um lado os blindados
do outro os periféricos
mas não vá se assustar
é apenas um enredo pra Vai Vai

 

Oferenda

Se me cegar a paixão
eu corro pro mar
ofereço as minhas rendas
pra Maíra não escolher João
e não ser tão danada

Inspirado em uma entrevista do antropólogo e escritor Darcy Ribeiro

 

 

Não tem fim

Não tem fim
imaginei assim
este amor
morena clara
sob o sol
sob a luz da lua
na canção
no dia a dia
se nos faltar
pão e poesia
chora não
é luta
é travessia
num brasileiro chão
solo de invenção
e memória

Inspirado na escritora Lygia Fagundes Telles

 

Não nasci ontem

Disseram pra não sonhar
que este tempo já passou
mas não nasci ontem
quero viver
o que for possível
vejo tudo brotar por aí
disseram pra não sorrir
antes da chuva
depois do sol
que o tempo é dinheiro
que o tempo é inverno
mas não nasci ontem
não neste inferno
colégio interno
vivi lá fora
e aprendi muito mais

 

Não carregue o mal

Não carregue o mal
na sua boca vaidade
não dê a pena capital
nem tudo depende de sua vontade
não carregue o mal
nos seus olhos amorais
não patrulhe as mulheres
por serem tão sensuais
não carregue o mal
nas suas mãos sociais
não pressione os jornais
contra a distribuição dos pães

 

Não abro mão

Sou feliz contigo
não abro mão
adoro teu sorriso
tua voz teu coração
não abro mão
de ver a sua dança
no felino chão
no tapetinho mágico
que voassim
feito as páginas do livro
as músicas
as águas…

Minas me cercou

Minas me cercou
mas eu voei
outras montanhas
não disse eu te amo
mas cantei
o nosso amor
que foi o melhor
oceano inexplicado
mergulhei
não pra desvendá-lo
tento ficar só
mas só lamento não te ver chegar
junto
mais e mais

 

Meninos da Luz

Cidade infundada
cidade caindo
nesta enxurrada
não se brinca, não!
mas vejam só
dois meninos boiando
chapados de cola
um no marco zero
um no vale
traçando planos pra refeição
planos de fuga
adeus esquadrão
vão agora
são craques da Luz
agora andam
mandando na Luz

 

Mana Chica
música e letra: Val Gomes

O balancê, balancê
Mana Chica vem vê

olha o toque rasgado da viola
é marreca ou andorinha
o cavalheiro com chapéu na cabeça
é mineiro à magatô

cutuca o fogo
o fogo cutuquei
Mana Chica gostei
do balancê, balance

O balancê, balancê
Mana Chica vem vê

olha a dança da nossa quadrilha
é esperança e alegria
a mocinha com lacinho no cabelo
é faceira ou extravagante

cutuca o fogo
o fogo cutuquei
Mana Chica gostei
do balancê, balance

O balancê, balancê
Mana Chica vem vê