A negligência, a atenuação e o silêncio também configuram formas de violência.
Assistimos de norte a sul, de leste a oeste do País, e também em várias partes do mundo, o “índice da maldade” em suas mais variadas formas, e, assustados, nos deparamos com o crescente número de guerras e de estupros noticiados. Se por um lado estamos dando luz a esses crimes bárbaros, cometidos contra os mais vulneráveis, por outro lado nos defrontamos com a crueldade travestida no poder, na família, nos amigos e no assédio de pessoas que, na maioria das vezes, fazem parte do círculo de confiança das vítimas.
Barbáries: uma mulher de 31 anos foi atropelada e arrastada pelo namorado; uma garota de 17 anos foi vítima de estupro coletivo por colegas; uma criança de 12 anos, com consentimento da mãe, foi vítima de estupro por um homem de 35 anos; e um garoto de 11 anos também foi vítima de estupro por um ator famoso. Os animais Caramelo e Orelha foram alvos de violência revelados pelos meios de comunicação.
Aqui, apenas algumas citações da brutalidade que enfrentam os mais vulneráveis.
A sociedade não pode silenciar-se. Precisamos de uma rede de proteção, amparo e cuidados para que essas vítimas sintam-se acolhidas e novas denúncias possam vir à tona. Para que o combate ao estupro, e com a devida punição ao estuprador, aconteça sem atrasos da legislação, cujo poder em sua maioria é ocupado por homens. Todos precisamos repudiar esses crimes, essa selvageria, apoiar as vítimas e participar dessa luta, para que possamos ir rumo a uma humanidade mais segura e solidária. Temos a responsabilidade de enfrentar esse desafio em nossas famílias, amizades, no trabalho e na sociedade em que vivemos.
A história nos mostra que o preconceito contra os mais vulneráveis atravessa os séculos e, enraizada na cultura, continua a promover a lei do patriarcado como princípio estabelecido inquestionável para muitos indivíduos. Assim a sociedade naturaliza e continua a reproduzir esse padrão de “Costela de Adão”. Essa metáfora ainda é muito usada para a consolidação das famílias no Brasil. Enquanto as leis forem executadas com esse pensamento herdado, viveremos sob a tutela da falsa cidadania. Toda a população vulnerável precisa de acolhimento e não de exclusão.
Precisamos romper o ciclo vicioso que representa os resquícios de uma perseguição de escravocratas da modernidade que impõem, por intermédio de posições privilegiadas, a perpetuação do poder e da lei do mais forte. O grande incômodo com a voz dos vulneráveis reflete a prevalência de uma legislação desses misóginos sobre os corpos, sonhos e destinos, que em suas lentes desumanas não podem ser incompatíveis com os interesses até então estabelecidos. Aliás, só se acham fortes, em sua grande maioria, porque têm as leis produzidas e exercidas por eles mesmos e o respaldo de uma herança de ódio, covardia, crueldade e omissão.
O saldo disso tudo é o que presenciamos na humanidade. Uma luta desigual e uma sociedade cada vez mais injusta e violenta, sendo conduzida em todas as suas esferas por homens que muitas vezes protegem seus pares e ampliam seus domínios. Os números nos mostram isso. Quanto mais avançamos em solidariedade e empatia, mais temerosas, conservadoras e violentas ficam as pessoas que recusam a diferença e a diversidade como valores. O ódio corrompe as sociedades como um todo. É necessário o equilíbrio diante do cenário retroativo que vivemos. O século XXI começou com comportamentos da Idade Média. Não podemos retroceder.
E como ficou conhecida na voz de Beto Guedes a poética de Fernando Brant e Milton Nascimento: “Sonhar já é alguma coisa mais que não sonhar”.
Texto e arte de Susana Buzeli, jornalista